Hope - da saúde mental ao impacto social

Atualizado: 17 de jul.

Quando a gente vê, mesmo que de longe, a linha entre a vida e a morte, passamos a dar valor a cada momento da vida e percebemos que o trabalho não é apenas uma fonte de renda, mas um dos pilares que sustentam o nosso sorriso.


Era junho de 2021, quando tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida. Pai de uma criança de apenas um ano e oito meses, aguardando o melhor momento para ter o segundo filho e vivendo o auge de um dos momentos globais mais complexos dos últimos tempos - a pandemia da Covid 19 - decidi me desligar de uma posição que atuava há mais de seis anos.


Saí da empresa na qual participei do nascimento, sem saber se conseguiria me recompor, se conseguiria trabalhar novamente ou se estava à beira do fracasso da vida. O motivo? Saúde mental, transtorno de ansiedade, frescura ou qualquer nome que queira dar. Foi um daqueles períodos em que você sabe que passará o resto da vida sem ter clareza se deseja esquecer ou se mantém vivo dentro de si para aprender alguma lição. É sobre esse assunto que iremos falar neste artigo e, ao final, você vai entender que a Hope também é sobre isso.


Quando a pandemia se instalou no Brasil, estávamos operando um novo protótipo de uma empresa de telemedicina que oferecia atendimentos de especialidades médicas para clínicas públicas do Rio de Janeiro. O objetivo era reduzir as filas de consultas eletivas com especialistas a partir de uma conexão entre dois médicos, e naquele momento havíamos conquistado uma redução de 35% da fila gerada pelas unidades que atendíamos. Estávamos seguindo um caminho possível e promissor, quando vi, pela primeira vez, no carnaval de 2020, a notícia de que a Covid-19 havia se espalhado pela Europa.


Como atuávamos na área da saúde, tivemos que ligar o alerta vermelho e, diferentemente de outros setores, fomos obrigados a enfiar o pé no acelerador para conseguir nos adequar àquela nova realidade. Logo a telemedicina direta com o paciente foi liberada e tivemos que readequar todos os nossos protocolos, sistemas e tecnologia para poder atender uma sociedade que estava aterrorizada com qualquer ambiente presencial, principalmente em relação a ambientes clínicos.


Passamos de 12 funcionários para 200 em 3 meses, de cerca de 30 para 2 mil atendimentos diários, as planilhas voavam pelas nossas cabeças, os setores, hora presenciais, hora remotas, se misturavam como se não houvéssemos lideranças. Entre reuniões diárias feitas de forma presenciais com médicos e enfermeiras que voltavam da linha de frente dos atendimentos nos hospitais, fomos levando e maquiando os riscos que corríamos junto às nossas famílias naquele momento, com direito a diversos surtos da doença em nossa equipe, mas sem saída para o problema.


Era uma mistura de medo, realização e culpa. Medo social, realização profissional e culpa pessoal, por me sentir realizado profissionalmente às custas de tanto sofrimento. Uma loucura interna que fui incapaz de absorver ao ver tudo isso somar-se a um método e rotina de trabalho ainda mais difícil de compreender e que me fazia desconectar dos meus propósitos a cada dia que voltada para casa.


Já havia alguns anos que me sentida exaurido, o cansaço mental acumulado por diversos outros motivos, que não devem ser muito diferentes dos seus, já havia bagunçado parte das gavetas da minha mente e eu não conseguia fazer nada para colocar tudo aquilo no lugar. Os episódios de sudoreses e faltas de ar já faziam parte da minha vida de forma branda, mas associava a possíveis crises alérgicas e rinites, me escondendo do real problema.


Na época, minha única preocupação era trabalhar para dar à minha família aquilo que cobrava de mim mesmo: as mesmas condições e oportunidades que meus pais um dia me ofereceram. Essas cobranças eram de natureza morta, uma tela de pintura fixa, sem qualquer movimento, que parava a frente dos meus olhos e não saia, e qualquer coisa que tentava fazer para mudar, logo aquela mesma tela surgia novamente e se fixava ali, me trazendo um desanimo monstruoso, capaz de tirar meu sono e estrangular o meu sorriso nos momentos mais incríveis que passavam à minha frente. Sem me dar conta, ao longo dos anos, me distanciei dos amigos, da minha família e de tudo que me fazia algum bem.


Foi a junção desse cenário, com a vivência da pandemia, que me levou a uma situação que queria nunca ter vivido. Um certo dia, ao me deitar, se instalou uma crise de falta de ar que quando me dei conta já durava mais de dez horas. Começou às oito da noite e quando percebi eram sete da manhã e eu não havia dormido, meus músculos do corpo inteiro estavam completamente fadigados, meu peito parecia ser pressionado por uma máquina de tortura que apertava os meus ossos, uma enxurrada de suor descia pela minha cabeça, e eu ali, de frente ao espelho do banheiro, tentando me esconder para não preocupar as pessoas que amo, apoiado na pia sem qualquer energia, puxando um ar que não vinha, numa respiração tão curta que, a cada tentativa de respirar, aumentava ainda mais o medo de morrer.


Foi quando, com muita dificuldade, fui até o quarto, acordei minha esposa e pedi para que me levasse ao hospital. Não sabia se estava com algo no pulmão por ser fumante, se estava com alguma doença ou mesmo se estava com Covid e entraria naquele hospital para nunca mais sair.


Foi nesse dia que vi, mesmo que de longe, a linha entre a vida e a morte, e que dias depois começaria a perceber que o trabalho é necessário, que precisamos nos dedicar muito para ter resultados, mas que precisa ser, também, fonte de sorriso, de bem-estar e de realização. Aprendi nesse episódio que, enquanto o trabalho for fonte de angústia, tristeza e desgaste mental, precisamos nos mexer para mudar o cenário. Trabalhar com dedicação definitivamente não significa se matar de trabalhar.


Naquele dia, depois de ficar o dia todo na área de Covid, saí do hospital totalmente livre dessa suspeita ou de qualquer outro problema no sistema respiratório e fui direto para o psiquiatra, que já me aguardava por indicação de um amigo médico que me ajudou a mudar a minha vida. Recebi, então, uma dispensa do trabalho de quinze dias por orientação médica. Iniciei o tratamento com medicações bem orientadas, seguido de rotinas de meditação, feito por um outro grande amigo que ajudou a alterar o rumo da minha história. Sessões de acupuntura, terapia e uma busca por conhecimento intenso com foco na mudança de visão de mundo, de fato, valeram a pena.


Depois de vinte dias, voltei ao trabalho bem mais consciente e segui as orientações médicas para não tomar nenhuma decisão importante durante os próximos trinta dias. Mas, a partir daquele momento, já comecei a estruturar o meu próximo passo para que pudesse viver respeitando meu corpo e minha mente e entendi que para que isso acontecesse, precisaria ajudar pessoas. Foi ali que nasceu o primeiro suspiro da Hope.


Algo me movia para um caminho que ainda não estava claro, mas longe de ser escuro como a trilha que estava seguindo. Meus estudos e motivações me mostravam que queria mesclar conhecimentos de inovação com impacto social, duas frentes que, apesar de em momentos diferentes, sempre fizeram parte da minha vida, desde quando era um jovem compositor que tentava criar conções diferentes com letras que buscavam a reflexão social. Esse propósito começou a me mover diariamente e logo tive forças para tomar a decisão de me desligar operacionalmente daquela empresa, ficando apenas como sócio e representante no conselho.


De lá para cá, foram doze meses de trabalho intenso, difícil, arriscado. Deles, seis foram de pesquisas e conversas com empresários e, principalmente, pessoas de famílias desfavorecidas. Estava descobrindo um mundo que não conhecia, desenhando jornadas, rabiscando paredes e encontrando equilíbrio para que aquele castelo parasse de pé. Um trabalho profundo, instigante e motivador. É assim que vejo esse novo desafio: apesar de arriscado e difícil, é agradável, saudável, sustentável e com propósitos alinhados aos meus. Esse detalhe me dá o direito de acordar e viver, ao invés de morrer; de sorrir, ao invés de chorar; de seguir em frente, ao invés de estacionar. Independente do quanto for difícil ou arriscado, ali na frente tem um propósito que me permite testar caminhos, errar, aprender, até chegar lá.


Depois de anos buscando aquilo que queria fazer com a minha vida e com o meu tempo, pousei no trabalho do impacto social, ajudando pessoas desfavorecidas a se conectarem com o mercado de tecnologia. Uma forma de contribuir com o futuro das pessoas, das empresas e do mercado. Uma paixão pela inovação que vem se desenvolvendo há mais de dez anos dentro de mim, somada a uma força de impacto para aqueles que mais precisam que também sempre esteve presente nos meus objetivos, por mais que adormecida por um tempo.


Hoje, vejo com bastante clareza que preciso fomentar três pilares que dão significado aos meus dias: a crença naquilo que faço, a prosperidade de cada bolsista que passa pela Jornada Hope tech, e a convivência e felicidade com a minha família e amigos que continuam à minha volta.


Torço para que tenha gostado de saber as raízes da nossa empresa e as motivações que a fizeram existir. Se você se identifica com essa história, vem para a Hope, estamos te aguardando para que tenha o seu próprio projeto de impacto social.

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